Durante duas décadas, dirigi uma van cheia de cicatrizes e fedorenta pelas ruas de Los Angeles, transportando estudantes dos quais o sistema havia desistido. O veículo era uma tumba rolante – assentos desgastados, paredes gravadas com desespero, as palavras “FODA-SE ESTE LUGAR” gravadas no plástico atrás do meu assento. Todas as manhãs, eu me perguntava se hoje seria o dia em que finalmente concordaria com eles.
Estas não eram crianças da vizinhança; foram eles que os distritos de origem rejeitaram depois de esgotarem todas as opções: meninos de 10 a 18 anos de lares coletivos e lares adotivos, colocados em escolas não públicas como último recurso. E eu deveria transportá-los, mal treinados, através do trânsito da hora do rush, com apenas um comportamentalista distraído como apoio.
Os primeiros dias foram brutais. Um estudante, Diego, bateu nas janelas com tanta força que a van estremeceu. Ele gritou, batendo o sapato contra o vidro de segurança até que seu rosto se contorceu de desespero. Outro, Marcus, avançou para a saída de emergência no meio do caminho. O behaviorista recusou-se a intervir sem “autorização”, mesmo quando Marcus ameaçou entrar no trânsito. Implorei-lhe que me ajudasse, mas ele apenas encolheu os ombros, impassível.
Não se tratava de educação; foi contenção. A van foi apenas o começo. A escola em si era uma fortaleza, com salas de aula abarrotadas de carteiras arranhadas e salas de contenção vazias escondidas atrás de armários onde os alunos gritavam, chutavam e perdiam o controle. O distrito viu números em planilhas, os behavioristas viram problemas para administrar, mas eu vi crianças fracassadas em todos os sistemas destinados a protegê-las.
A realidade da educação especial não são folhetos brilhantes ou etiquetas pesadas de mensalidades. É um abismo perigoso entre o treinamento e a sobrevivência, forçando os professores a improvisar sob pressão. Ninguém avisa que a maioria não dura cinco anos, e aqueles que ficam se encontram num sistema concebido para armazenar estudantes, cortar serviços sob o pretexto de crises orçamentais e silenciar a dissidência.
Fiquei vinte anos. Subi daquela carrinha para a liderança distrital, testemunhando a repetição dos mesmos padrões em todas as comunidades: administradores “reestruturados” para se manifestarem, consultores pagavam taxas exorbitantes enquanto os estudantes sofriam. O manual é claro: contenha, gerencie e recompense o silêncio.
É um sistema que quebra os professores, mas quebra primeiro as crianças.
Sally Iverson serviu mais de 20 anos no sistema de educação especial da Califórnia, desde professora até diretora da SELPA. Este ensaio foi adaptado de seu próximo livro, “THE UNLIKELY TEACHER: Down the Rabbit Hole of Special Education.”






























